Uma passagem rápida por coisas importantes
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publicado por Mimosa, em 12.12.03 às 02:38link do post | favorito

Faz hoje, dia 12 de Dezembro precisamente 3 anos, que acumulei mais um parágrafo ao texto das lições de vida, que vou empilhando e guardando, e que, na minha “máquina especial” reciclo em experiência.

Passo a contar a história:

Eram para aí umas 2 e meia da manhã ( nunca lá andava de relógio ), e após festa bem “regada” num apartamento de estudantes que estavam a fazer uma espécie de Erasmus em Salvador, decidi enfrentar aquele papão “da falta de segurança”, e ir a pé para o tal apartamento ( o sujo e quente…a 10 metros da praia! ) que tinha alugado. Estava farto do convívio! Não tenho paciência para karaokes e sobretudo, estava a estranhar as pessoas comunicarem-se num estranho alemão-sueco-espanhol-italiano... inglês..no Brasil.

Decidi, incosnscientemente, pôr-me no meu passo apressado mas descomprometido, e tentar orientar-me até ao Porto da Barra. Havia táxis…mas decidi ir a pé, ora essa…”É já ali”!
Uma pessoa quando está alcoolizada, para além da confiança que ganha, encurta por completo as distâncias...Não sei quanto andei…mas, numa das ruas por onde passei, esbarrei ( este é o termo ) contra um supermercado aberto 24 horas. Como não tinha nada para beber em casa – lembrei-me desse pormenor naquele preciso momento em que me recompunha do estoiro!-, e porque faziam 37 graus nesta altura ( à noite! ), decido entrar e com uns reais, comprei uns iogurtes, sumos e água.
Com uns sacos brancos ( não sei o porquê de me lembrar da cor dos sacos! ), e com uma melhor orientação ( após balbuciar o nome da rua ao empregado do supermercado ), coloco-me determinado, em direcção ao porto.

Marchava eu maquinalmente no passeio do lado contrário ao apartamento, e quase que choco com um grupo de miúdos que dormiam em cima de uns cartões de papelão, daquele que é reciclável, e que costumava usar para fazer maquetes. Não consegui ver a cara dos “nêguinhos”, mas, entre a sombra dos cartões, deparei-me com uns olhos brancos que me seguiam…

Instintivamente, e até hoje não me lembro como é que me surgiu a ideia, perguntei-lhe se queria beber qualquer coisa ( a palavra bebida era a constante da noite! ). Ele respondeu:

-Está falando comigo, tiô? ( vou tentar imitar na escrita, o estilo bahiano! )
-Estou, pá…queres uns iogurtes?
-Iogurte?Pôxa tio…é lêgau!

Disse-lhe para esperar à porta de entrada do prédio. O “nêguinho” não tinha mais de 6 anos, cabelo rapado, magro, de sorriso reguila…mas até hoje, não vi miúdo de Salvador com olhar mais expressivo.
Fui a casa, e trouxe-lhe garrafas de sumo, e todos os iogurtes que tinha comprado. Aliás, lembrei-me na altura que nem tinha olhado para os sabores…e eram todos de côco. Detesto iogurtes de coco!

-É tudo para nós, tiô?

Disse-lhe que sim, e ofereci-lhe uma T-shirt que tinha da Associação Académica de Coimbra. Era muito grande para ele, mas enfim…também só faltava conseguir "medir" o puto naquela fase! Ele agradeceu...

Subi, e abri a janela do quarto. Estava um calor insuportável! Liguei a ventoinha, e fui até à varanda, ver se apanhava ar. Bem que precisava! Estavam todos os miúdos acordados…eram cinco. Bebiam deliciados os iogurtes. O puto, o tal, olhou para mim, e sem dizer nada, sorriu e fez com os dedos o sinal de “légau”! Tive a consciência que estava mesmo no Brasil…acho que era a primeira vez, apesar de estar lá há dois meses.

Ao outro dia, depois das 5 da tarde ( quando chegava do trabalho que estava a realizar ), fui a casa mudar de roupa e calçar uns chinelos de dedo. Atravessei a estrada e fui dar um mergulho. A praia era ali.
Depois de me deliciar naquele mar sem ondas, aluguei uma cadeira por 1 real ( na altura eram 100 paus!, e desta forma, poupavam-me o roubo de uma toalha ). Sentei-me…e depois pedi uma água de côco ( água de coco, já gosto! ). Veio alguém ter comigo que não tinha visto até então, e trouxe-me a bebida…Como só tinha 1 real ( custava ½ ), disse-lhe para ficar com o troco.
Ele disse que não queria! Fiquei estupefacto!"O que é que os meus reais, têm? - pensei!"

-Porquê, pá?
-De você, tiô…não quero mais nada. Jamais! Nunca mais me vou esquecer daquele sabor do iogurte, que você nos deu ontem! Eu não estava dormindo…as crianças da rua no Brasil, não dormem…

Olhei para ele ( não era o reguila ), e acrescentou:

-E aí tio?Em que lugar está mesmo êssi clube?AAC? – tinha vestida a t-shirt, que lhes tinha oferecido.

P.s. - Não estranhem por isso, que um dia, um futuro presidente do Brasil, diga que é da Académica desde pequenino

-

Por: Mimosa


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