Uma passagem rápida por coisas importantes
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publicado por Mimosa, em 01.10.03 às 11:14link do post | favorito

*Peço desde já desculpa pela extensão do post!
 
 Na TSF, e enquanto fazia a minha viagem rotineira de 2,6 Km para o trabalho, entre o estrebuchar de veículos carregadinhos de uma só pessoa – como o meu, deparei-me com uma notícia alusiva às “quotas” que as rádios deveriam “passar” ( adoro este termo, que ainda é legal...”passar música” ) de música portuguesa, na(s) sua(s) programação(s) diária(s)!
 Não sendo este um tema novo, e sobre o qual, tenho há muito algumas opiniões formadas, “apimentou-se-me” o facto de se tratar de uma proposta real, que iria ser votada em Assembleia da República.
 Sinceramente, e a esta distância, não entendi bem o cerne da questão, até porque tinha chegado o meu ponto de “desembarque”! Fiquei a pensar várias coisas, que me podiam ter escapado:
 
 - Pensei que poderia existir uma ligação, entre a notícia e a elevada percentagem de IVA que os cd´s de música carregam sobre si, comparada com a não menos já elevada, que os demais elementares objectos de passagem cultural suportam;
 - Pensei que o Estado iria conceder subsídios à produção de música portuguesa, e incentivar o surgir de novas bandas ( portuguesas ), concedendo-lhes um imposto atractivo, mais direitos económicos sobre o produto que apresentam, e prioridade na sua implementação/colocação em espectáculos de índole Municipal ( leia-se aqueles espectáculos milionários que as Câmaras pagam);
 - Pensei que andavam a discutir, se aboliam de vez a música do Vangelis, na promoção dos partidos políticos;
 - Pensei que iriam “obrigar” a passar música clássica de compositores portugueses, sem serem patrocinados exclusivamente pela Gulbenkian;
 - Pensei que as rádios iam fazer greve, porque não queriam passar música portuguesa.
 
 Ontem, constatei que estava totalmente errado, e que de facto, a fantochada que se vai fazendo no nosso país, continua!
 Quinta-feira, foi votada a proposta do PS que em traços gerais “impõe” ( e aqui está a gravidade! ) uma quota mínima de música portuguesa nas rádios nacionais entre os 20 e os 40% da sua produção diária. Teve os votos a favor da oposição, e a abstenção ( obviamente que não tinham coragem para votar contra ) do PSD e do PP.
 A proposta destes últimos, era ainda mais arrojada - 50% de quota -, estando dividida entre 25% de música portuguesa e o restante, de “música cantada em português” ( genial ). Votaram a favor a coligação...votaram contra a oposição. Falta a proposta do PSD.
 
 Desde já constato, que:
 - os partidos políticos, nomeadamente os seus membros, devem passar horas a ouvir rádio, e que para eles, isso é um problema nacional ( de facto, devem estar a fazer alguma coisa, porque é raro vê-los no parlamento...e sempre suspeitei daqueles “phones” que os gajos usam! );
 - se um partido apresenta x, o outro não gosta, e tem que propor  x+y...o que neste caso, confere ao problema traços de surrealidade;
 
 Debruçando-me sobre as propostas, digo que:
 
 - Não é colocando mais música portuguesa, que se vai comprar mais cd´s dessa mesma música, e por conseguinte promover as bandas a um estatuto que até aí não requeriam. Que culpa têm as rádios disto?
 
 - A grande maioria das bandas portuguesas “com sucesso relativo”, canta em inglês. Porquê? Dava para o Menir escrever um livro...mas nós não somos brasileiros, e eles vivem ao lado dos “Estados Unidos”. Não é comparável a situação brasileira com a portuguesa. Basicamente e resumindo ( talvez de uma forma pouco objectiva ) o Brasil tem 500 anos de uma história predominantemente portuguesa. Nós, desde sempre fomos “aculturados”...com identidade própria, mas inserida num contexto global europeizante. Os brasileiros não dominam ( por variadíssimas razões ) a língua inglesa, francesa, nem mesmo a italiana ( que tanto prestiguam )! Logo, que sentido fará cantar em inglês, para um brasileiro? Que culpa têm as rádios disto?
 
 - Não se pode distinguir, a qualquer nível, entre música portuguesa e música cantada em português. É uma aberração. Não há meios portugueses...existem portugueses. Como não existem meias rádios portuguesas! Existem rádios que passam música ( ponto! ).Que culpa têm as rádios disto?
 
 - Com excepção de alguma melhoria registada no processo criativo da produção musical portuguesa ( últimos 10 anos ), ela era de fraca qualidade, na sua globalidade. Era um objecto/ferramenta do povo, de arremesso nalguns círculos, predominantemente de entretenimento nos restantes. Que culpa têm as rádios disto?
 
 - As rádios passam a música ( apesar de todos os lobbies instaurados, das máquinas gigantescas de propaganda, etc... ) que queremos ouvir! Se eu quero ouvir os Silence 4, cantar em Inglês, teremos que os enquadrar naqueles da música portuguesa...e se eles cantarem “O silêncio” com o Sérgio Godinho? Já são rotulados de banda que canta em português?
 Os Toranja têm a maior máquina propagandística já alguma vez feita no nosso país! Quantos cd´s venderam ( oferecem-se cd´s na assinatura do Blitz – para os interessados) ? Quantos espectáculos fizeram? Onde é que eles estão? Atrás do “Cenário”, certamente! Que culpa têm as rádios disto?
 
 - Onde está a democracia? Que culpa têm as rádios disto?
 
 - Quem é que controla? Quem paga esse controle? Como é que é feito, em 24 horas? Que culpa têm as rádios disto?
 
 Gostava certamente que se passasse mais música portuguesa, mas não por imposições de um Estado que promove uma proposta sem que nunca tenha ouvido os portugueses, quando mais a sua música!
 Desejo que os motivos para que se fomente esse aumento, estejam relacionados com melhorias ao nível das canções, dos músicos e das condições ( económicas, sociais, logísticas, etc ) que eles próprios requerem ( e a esse nível, noto em Portugal pouco corporativismo – excepção feita por exemplo aos Xutos e Pontapés que se recusaram a fazer Queimas das Fitas com bandas estrangeiras...mas também, já têm outro estatuto...já se dão ao luxo! ). Que se baixe o IVA na cultura, que se subsidie/apoie a música e os músicos portugueses nos pontos que interessam ( e que os desenvolve ), que se coloquem bandas portuguesas nos concertos de inauguração da piscina x, que desapareça a música do Vangelis na propagandística eleitoral...
 De outra forma, acho bem que o pessoal das rádios venham para a rua e protestem, porque o nosso Governo não está numa situação de impôr mais nada aos portugueses...e as rádios não têm culpa nenhuma!


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