Uma passagem rápida por coisas importantes
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publicado por Mimosa, em 05.12.03 às 02:10link do post | favorito

Por razões que ela não me explica, tive a oportunidade de ir para o Brasil, “passar” uns quantos meses, para acabar um trabalho que já tinha começado em Portugal. Hoje, continua muda e teimosa, perante as minhas solicitações, e permanece queda e irredutível, em tecer-me as respostas aos porquês que produzo.
 
 “Ouves? É o chamado insistente dos atabaques na noite misteriosa. Se vieres eles tocarão mais alto ainda, no poderoso toque do “chamado do santo” e os deuses negros chegarão das florestas d´África para dançar em tua honra. Com seus vestidos mais belos, bailando os mais doidos bailados. E as yawôs cantarão em nagô os cânticos da saudação.
 
 Sem saber bem como, lá estava eu a atravessar o Atlântico ( sem mala de cartão ). O Atlântico é aquela barreira que nos separa, mas também é aquilo que nos une, dizem eles…costumo pensar que “em cada onda que vem, há sempre uma que vai, que pode não ser a mesma, mas é uma amiga dessa.” Tem sido assim, desde 1500 e muitos, altura em que o Pedro ( não é o Santana, mas o Cabral…não o do PCP, mas o outro ) foi para aquelas bandas, na ânsia de alargar o nosso território.
 
 “Os saveiros abrirão as velas e rumarão para o mar largo de tempestades. Do forte velho virá música antiga, valsa esquecida que só o ex-soldado recorda. Os ventos de Iemanjá serão apenas uma doce brisa na noite estrelada. O rio Paraguaçu murmurará teu nome e os sinos das igrejas de repente tocarão Avé-Maria apesar de que o crepúsculo já passou com a sua desesperada tristeza.”
 
 Decide, por questões que não cabe nem a ele ( porque já morreu ) nem a ela ( porque não quer ) explicar, nem a mim aprofundar ( apesar de isso ter tido a ver com o tal trabalho ) fundar uma cidade no topo de um morro ( termo brasileiro ), que fosse "segura" e que tivesse possibilidades de se expandir, conforme era solicitado pelo Reino…ficou Salvador, e como se apaixonou pela imagem da Baía ( porto seguro de embarque ) que estava a seus pés… casou-se, e então optaram por Baía como nome de família: Salvador da Bahia.
 
 Por razões que ela persiste em guardar, a cidade tornou-se num pedaço de mim. Pedaço que me consome a cada momento, em que tenho a absoluta certeza de que ela poderia ser diferente…ou não.
 
 Salvador é uma parte dela, da minha e de muitas pessoas que aprendi a conhecer, gostar, falar, brincar, partilhar, cantar, dormir, trabalhar, nadar, sorrir, gritar, chorar…amar.
 Salvador é a palavra mais próxima daquela que identifico como “saudade”.
 Tenho saudades dela e das suas gentes; do apartamento velho, porco, sujo, quente, e que ficava a dez metros literais da praia – Porto da Barra -, onde os portugueses tinham instalado o primeiro forte; do pôr-do-sol a Oriente ( dos poucos locais no Brasil onde o sol se põe, no mar - mesmo lado que em Portugal ); da humidade, da noite, das danças, da música…do Aché, do concerto do Lulu Santos e Terra Samba no "Clube de Ténis", do Djavan na "Concha", dos ritmos do Carlinhos Brown e dos shows da Timbalada nas "favelas" ao domingo, da Daniela Mercury, do Caetano Veloso e do espectáculo da Maria Bethânia com a Gal Costa e Pavarotti na "marina, junto ao forte"; da dança de Candonblé seguida do Caruru de frango, com Vatapá; do aracajé simples que é vendido nas barracas que bloqueiam os passeios, da muqueca de camarão ou de peixe no restaurante da esquina em cima do mar, da comida a quilo, das saladas, dos sucos de laranja, da água de coco da Lagoa ( a tal de que fala o Caetano ); do restaurante Iemanjá, da própria deusa, do Senhor do Bonfim e das suas pulseiras, das tartarugas da Praia do Forte, das casas de colmo da Praia dos Hippies, da praça e do jardim do Campo Grande, da obra de engenharia do Elevador Lacerda, da cor, das casas, do cheiro do Pelourinho, da Graça, Vitória e Nazaré , da virgindade da Ilha de Itaparica, das praias da Ilha, do mar…o mesmo…de Salvador e da vida que aí tive durante aqueles meses.
 
 A moeda ao ar, parece-me ter sido hoje ( e porque essa puta continua sem me dar respostas ), o "método" escolhido, na altura em que optei por ficar aqui, em troca daquela outra cidade. Foi coroa…devia ter sido cara. Salvador é mais a minha cara.
 Aqui tenho o meu reino, a minha coroa, a minha família, a minha cidade, os meus "outros amores", os meus temores, os meus rancores…lá deixei ficar aquela parte dela… e de mim! Sei que, mais cedo ou mais tarde, tenho que ir buscar a peça que falta…nunca deixei ficar puzzles a meio.
 Ela?…ela é a puta da vida…
 
 “Vem, a Bahia te espera. É uma festa e é também um funeral. O seresteiro canta seu chamado. Vou mandar que batam os atabaques e os saveiros partam em tua busca no mar. Serão doce brisa os ventos, e as palmas dos coqueiros te saudarão das praias.
 
 Vem, a Bahia te espera! “ – Bahia de Todos os Santos, Jorge Amado

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por: Mimosa


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